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Pátria Cuiabana


Viva minha pátria Cuiabá!
Ela é a primeira entre todas
as pátrias que se tem na vida
Não consigo imaginar-me sem ela

Depois de Cuiabá vieram outras
pátrias brasileiras, num crescendo
Só posso dizer que amo minha Pátria
porque amo o que vivo, vivendo

Canto para Pátria


Perdoe-me, Cuiabá,
se não canto
suas belezas
suas ruas
suas pessoas, que honram de serem cuiabanas
suas moças morenas
seus jardins públicos
seus parcos poetas
seu sol da tarde
no crepúsculo
seus rios
sua história
seus colégios
suas igrejas...

Cuiabá Verde

Cuiabá amanhece bonita nesta manhã de abril
Manga Bourbon pepita ilumina no alto do céu
Caju, morena, aos cachos, é doce no tacho
Viva a Vila Real do Bom Jesus de Cuiabá!

Cuiabá, nesta manhã de abril, amanhece bonita
Crianças brincando de esconde-esconde
Nos seus quintais... – Me dá um beijo, morena
Que essa vontade de amar está à solta no coração

Cuiabá, em abril, amanhece demais de folienta
Passarinho passeando pela paisagem da praça
Beija-flor beira a pétala sutil como ave
Aventureira lá e cá nas páginas de um jardim

Cuiabá, morena, é verde e gostosa
Quando chove até garoa e faz bastante calor
Corpo na rede e preguiça que hoje é feriado...
Viva a Vila Real do Bom Jesus de Cuiabá!

As Pessoas de Quem se Gosta

As pessoas que gostam da gente
nos acham simpática, uma graça
Outras, mais bondosas ainda,
nos acham uma alma boa e bonita

As pessoas que gostam da gente
nos olham e veem um menino ladino,
só enxergam as qualidades, poucas,
e supervalorizam as mesmas

O Céu em Chamas

O céu em chamas
no fim de tarde
é retrato pregado
na parede lateral

O céu em chamas
é pintura de artista
visionário que um dia
acordou antes da hora

De Alianças e Vaias


A João Negrão

Vejo alianças nas mãos das jovens médicas que vaiam
Velhos médicos cubanos pretos como nós brasileiros
Netos dos exilados da África em navios através dos mares
Rumo aos berços de todas as nações das quais pertencemos...

Não quero, porém, falar de negros, navios ou exílios tristes
Mas, sim das alianças nas mãos das médicas que vaiam colegas:
Ao ver as fotos, que prenunciam que as jovens podem ser mães,
E me pergunto, pois perguntar é meu ofício: que sentimentos,

Tudo é poesia.
O resto é li
                  te
                     ra
                         tu
                            ra.

Das gentes no ônibus

No ônibus
dezenas de pessoas
em poucos metros quadrados

Não se conhecem
não se olham
não se veem

Algumas, às vezes, são parentes
distantes, mas parentes
e não têm nada em comum
senão a fome, o desespero
a insensibilidade humana
misturados num poço de vaidade

Cuyabensis 300 anos

Descobri, meio que sem querer,
Que em latim, velho latim antigo
- Mesmo porque somos latinos -
Cuiabano se escreve cuyabensis

Cuyabensis de trezentos anos
De trezentos traçados, veredas
Córregos, rios, lagos mansos
E chuvas em abril... Oito de abril

Cuiabá, Cuiabanos e Cuiabana

Cuiabá 300-10 é contagem regressiva
Para o tricentenário da cidade verde
Ano que vem será menos nove
E Cuiabá não para, não para, não para...

Meu coração, quando bate, não para
De ser cuiabano, de ser otimista
De acreditar que o homem cuiabense
Além de hospitaleiro é esse mesmo...

Eu vi o cachorro sorrindo

Quando vi o cachorro sorrindo pra mim
Não acreditei, mas pensei: é meu dia de sorte!
Não são todos os cachorros que sorriem
E mesmo aqueles que riem, sorriem,
Não riem toda hora, qualquer momento

Nos dias de sorte, costumo andar, caminhar
Devagar, olhando para o céu, contando estrelas
E - se de dia - decifrando as formas das nuvens
E nesses dias de sorte, sempre, posso dizer,
Descubro uma nova estrela, um novo rosto

Gosto de Ser Cuiabá

Gosto de ser Cuiabá
Do gosto de peixe
Peixe de rio, frito
Ensopado e mojica

Gosto de ser Cuiabá
De ser sal da terra
De pé rachado
E caminhar à tarde

Anjo de Cara Amarrada

Não vi o anjo de cara amarrada.
Só vi o anjo (Não era pescador)
Navegava na flor
Pelos rios do Pantanal
Os peixes seguiam
Esse anjo em sua barca rosa

Passageiro

Eu passo, isso passa.
Um dia tudo será passado.

O que será que se passou?
Perguntaremos na dúvida
sobre a nossa passagem.

Virtudes Intrínsecas

Uma das virtudes intrínsecas da poesia é descascar abacaxi
Não precisa ser pérola, pode ser abacaxi selvagem
A poesia descasca com a mesma simplicidade d'uma uva
e o azedo do abacaxi selvagem ilumina o outro sabor

Uma das virtudes do abacaxi sereno é enganar pessoas
quando se passeia pela feira a procura duma fruta doce...
Ele não tem cara de fruta doce e doce não é quando azedo
O desafio é descascar e descobrir se precisa de açúcar

Pétala e Jéssica


Pétala e Jéssica
não se conhecem,
nunca se viram,
mas fazem parte
da mesma família
das proparoxítonas.

De Volta ao Inferno

Pobre não poupa,
pobre sai pela culatra
Pobre que é pobre,
Sem pressa, se merece

Bolacha na cara
de pobre é um tapa
Um tapa na cara
é Paulo Guedes

Café, Leite e Lembranças

Quando peço um café com leite,
Não peço apenas um café com leite,
Está incluso uma xícara de lembranças

A medida exata dessas lembranças
Ninguém sabe precisar, aqui ou amanhã
Nas manhãs que se repetem matinais

Café com leite é uma receita perfeita!
O preto café se mistura ao branco leite
E forma essa tonalidade brasileira...

Café do Ano Novo

Estou aqui. Bebi o café quente do ano novo,
lembrei-me de pessoas e dum livro de poemas lidos
quando queria ficar triste, mas alegre permaneci
olhando para fora da janela do próprio tempo

Contar o tempo quando se vê no espelho do banheiro,
ao fazer barba de pelos brancos, é obrigação diária
sem se exaltar, sem desespero, sem indignação vária

Ano Novo se Repete, também se Renova

O ano novo começa em primeiro de janeiro
E os anos, desde antes de nós, tem doze meses...
Os meses são os mesmos, os eventos reprisam
Em primaveras, verões, outonos e invernos...

Tudo se repete... Mas, repara, nada é igual
A vida é um ciclo, círculo, só que em espiral
Tudo muda, tudo se transforma, tudo melhora
Com o passar dos anos, dos dias, das horas

Amanhã é Outro Dia Doutro Ano (Poema de 31 de Dezembro)


Amanhã, as mesmas horas, é outro dia, outro mês
e, sem esquecer, outro ano de nossas vidas
Com o novo ano que começa novos projetos
outros planos de recomeçar tudo outra vez

Sem querer olhar (mas olhando) pro espelho
do tempo que transforma moço em velho
Fatos, acontecimentos viram lembranças
numa inexorável inevitabilidade cósmica

Minha Poesia Dramatiza

Minha poesia dramatiza
Qualquer mudança de endereço
Mudança de tempo: vento em temporal,
Mão de rua em transformação urbana

Minha poesia se solidariza
Com o homem a passear sozinho
Viúvo guardador de lembranças
Que despedaçam o coração

Vanguarda

Qual é a saída pra vanguarda?
Qual a saída pra crise, pela vanguarda?
A vanguarda está em crise
Ou a crise não afeta a vanguarda?

O que é ser vanguarda?
Sou fã ou fui guarda?
A vanguarda vem de avião?
Ônibus? De van?
Vem pelo correio
Ou pelos fios da internet?

Esconde-Esconde

A poesia esconde-esconde
entre o poeta e leitor
e a tudo responde

A poesia apronta, aponta
em terços de rimas
e não desaponta

Jesus Nazareno me disse ao pé da orelha

Jesus, meu bom Jesus, me disse no meu ouvido
de forma carinhosa, sussurrando para que sou eu escutasse:
– Não se renda, Poeta, não esqueça de seus sentimentos,
por favor não se renda à grande máquina 
e, fundamental, não esqueça de seus irmãos abandonados
à própria sorte, sem teto, nas calçadas, 
sem uma mão amiga pra prestar o mais simples dos mais simples
consolos que é o homem poder dar mão a outro homem.

O Quintal na Memória

De onde estou, mesmo em movimento,
Vejo a manga madura no quintal
A fruta da mangueira no quintal
Da casa de minha vó

A casa já não existe
O próprio terreno
As hortas, o galinheiro
Tudo que fazia um quintal
Ser quintal não resistiu

Absurdo

Escrever ou não escrever
é um dilema absurdo...
Se escrevo
saber como se o poeta
pensou em não escrever?

Se nego e não escrevo
o poema não se concretiza
nem o leitor e o próprio poeta
saberiam do poema

Negócio de ocasião

Vendo ou alugo um poema recém-refeito
Reformado para grandes eventos
Um poema para todos os sentimentos

O poema original estava esquecido
Com termos e rimas, hoje em desuso,
Parecia arcaico, um tanto esquisito

"Seleta Cuiabana", livro de poemas que falam Cuiabá, será lançado no próximo dia 10 de dezembro


No próximo dia 10 de dezembro, estarei entre às 19 e 21h na Livraria Janina, do Shopping Pantanal, autografando o livro "Seleta Cuiabana - 50 poemas que falam Cuiabá", uma compilação de poemas escritos nas últimas 3,5 décadas.
Edição da Carlini&Caniato Editorial
ISBN 978-85-8009-289-9
64 páginas